Inovação no Abastecimento de Água em Meio Rural
12. out. 2026 · Autora: Mirja Michalscheck, Skat Foundation, Rural Water Supply Network (RWSN).
Aceda à gravação e aos materiais da sessão, disponíveis a pedido, através do Asia and the Pacific Resilience Hub (HUB4R).
O que a Geórgia, o Camboja e a Colômbia nos ensinam sobre o financiamento da inovação no abastecimento de água em meio rural.
Poderá o financiamento dos bancos de desenvolvimento fazer mais do que financiar infraestruturas; poderá financiar a inovação na prestação de serviços e na sustentabilidade? Como pode o financiamento dos bancos de desenvolvimento ser mais bem adaptado aos contextos rurais, incluindo o apoio a ambientes favoráveis, modelos inovadores de prestação de serviços e sustentabilidade a longo prazo? Foi esta a pergunta por detrás de uma sessão do e-Marketplace do BAsD, a 30 de setembro de 2026, organizada conjuntamente pelo BAsD e pelo SIRWASH (Sustainable Innovations in Rural Water and Sanitation), no âmbito da colaboração mais ampla entre os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMD) em matéria de WASH rural. A segunda fase do SIRWASH, financiada pela Agência Suíça para o Desenvolvimento e a Cooperação, implementada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com apoio técnico da Skat Foundation, tem como objetivo reforçar serviços de WASH rural sustentáveis através da inovação, do conhecimento, do intercâmbio e da colaboração. A sua série de webinars, facilitada pela RWSN, reúne o BID, o BAsD, o BAD e o Banco Mundial para reforçar a Comunidade de Prática dos BMD sobre WASH Rural, promovendo a partilha de conhecimentos, a aprendizagem entre pares e a colaboração em abordagens para melhorar a prestação de serviços em meio rural.
Três experiências diferentes trouxeram respostas:

Geórgia: pagar por resultados
Apresentação de Maria Pia Ancora (BAsD)
Apenas cerca de um quarto dos agregados familiares rurais da Geórgia tem ligação à rede de abastecimento, e a maioria destes enfrenta um abastecimento intermitente. O Programa CLEAR Water (400 milhões de euros, repartidos em partes iguais entre o BAsD e o governo) é o primeiro empréstimo baseado em resultados do BAsD. Pela primeira vez no setor da água da Geórgia, o BAsD desembolsa com base em resultados verificados e não em contratos, e mais de um terço do financiamento depende das mudanças institucionais que melhoram os sistemas nacionais e mantêm a água a correr, e não da construção de condutas.
Mais de um terço do financiamento depende de mudanças institucionais: regras de manutenção com um mínimo realista de 250 dias de funcionamento por ano, uma estratégia nacional financiada para além de 2030 e planos de pagamento a prestações acessíveis para as taxas de ligação. A inclusão estende-se à própria empresa de serviços de água, onde estágios trazem mulheres para funções técnicas. Antes do início dos projetos, pelo menos 20% dos agregados familiares de cada aldeia têm de confirmar que pretendem ligar-se à rede. Lições até agora (10 meses após o início da implementação): planear assistência técnica para a modernização dos sistemas da empresa de serviços de água e definir, desde o início, valores de referência sobre as mulheres e a saúde para acompanhar os progressos.

Camboja: primeiro a reforma
Apresentação de Samol Ya (BAsD)
No Camboja, o programa de WASH rural combina um empréstimo de política, um empréstimo de investimento, uma subvenção para agregados familiares pobres e assistência técnica (93,6 milhões de USD no total). O empréstimo de política só foi desembolsado depois da adoção de nove reformas: uma lei que obriga os operadores de água públicos e privados a analisar e comunicar a qualidade da água, regras vinculativas sobre a adaptação climática dos novos sistemas, tarifas pagas pelos utilizadores que cobrem a manutenção, e contas anuais e participação das mulheres nos grupos comunitários de utilizadores. O investimento aplica depois essas regras em 400 aldeias, recorrendo a uma combinação de poços, tanques de recolha de água da chuva, pequenas estações de tratamento e sistemas canalizados, escolhidos com as comunidades. O governo tornou as regras vinculativas para todos os investimentos em WASH rural a nível nacional, pelo que este projeto catalisou uma mudança ao nível do sistema.

Colômbia: inovação liderada pelos operadores
Apresentação de Leonellha Barreto-Dillon (Cewas)
Em Antioquia, a Cewas trabalhou com dois operadores comunitários de água, que servem cerca de 4500 pessoas, para que definissem os seus próprios desafios: garantir um caudal estável desde a captação até à estação de tratamento e impedir que as habitações nas encostas poluíssem a fonte de água. Um hackathon com a Universidade de Antioquia envolveu estudantes, investigadores e empreendedores; os vencedores receberam 5000 USD para testar a sua solução com os operadores, além de apoio empresarial. O método está agora reunido num manual de inovação aberta. A mensagem principal para os financiadores: financiem todo o percurso, da cocriação e dos testes no terreno à incubação e à adoção, e não apenas a tecnologia.
O que aprendemos
🔧 O instrumento molda a instituição. Os empréstimos baseados em resultados, os empréstimos de política e as subvenções de arranque recompensam comportamentos diferentes. Decida que mudança institucional pretende e depois escolha o instrumento que a apoia.
✅ Tornar obrigatórias as componentes “soft”. A manutenção, as tarifas e a prestação de contas são normalmente as primeiras coisas a ser cortadas. Associá-las ao desembolso mantém-nas na agenda.
💬 Testar a procura antes de construir. As baixas taxas de ligação fazem fracassar muitos sistemas rurais. Verificar a disponibilidade para a ligação, ou deixar que os operadores definam o problema, evita construir aquilo que ninguém utiliza.
⚙️ O financiamento da manutenção continua por resolver. Nenhum dos três casos recupera a totalidade dos custos junto dos utilizadores. A manutenção a longo prazo continua a depender de uma combinação deliberada de tarifas, impostos e transferências, aquilo a que a OCDE chama os “3T”.
É transferível?
Os participantes no webinar perguntaram: a Geórgia é um país de rendimento médio-alto com uma única empresa nacional de serviços de água; poderá então a sua abordagem funcionar noutros contextos? A resposta: o financiamento baseado em resultados exige uma agência executora capaz e sistemas de finanças públicas fiáveis; onde centenas de pequenos operadores prestam os serviços, as subvenções por desempenho ou os subsídios baseados em resultados poderão ser mais adequados. As reformas de política exigem uma verdadeira apropriação e capacidade local para as fazer cumprir. A inovação aberta exige operadores organizados e um conjunto local de inovadores.
As perguntas dos participantes mostraram também onde nenhum destes modelos deu ainda provas: agregados familiares muito dispersos, onde o autoabastecimento apoiado poderá funcionar melhor; contextos frágeis e áridos; governos locais com orçamentos reduzidos; e o financiamento de reparações após cheias e outras catástrofes. Estas perguntas vão orientar o resto da série SIRWASH.
Como disse Leonellha Barreto Dillon (cewas), a inovação não substitui o Estado nem a gestão comunitária. Constrói pontes entre as capacidades públicas, comunitárias e empreendedoras. A sua escalabilidade depende muito mais desse ambiente do que da própria inovação.
| Abordagem | O que exige | Onde se adequa | Limites |
|---|---|---|---|
| Pagar por resultados (Geórgia) | Uma empresa de serviços de água ou agência capaz; sistemas de finanças públicas fiáveis; verificação independente dos resultados | Países com um prestador de serviços de água nacional ou regional | Contextos com muitos pequenos prestadores; resultados de verificação dispendiosa |
| Primeiro a reforma, depois o investimento (Camboja) | Apropriação por parte do governo; um ministério responsável capaz de emitir regras vinculativas; técnicos locais para as fazer cumprir | Países com mandatos fragmentados e muitos sistemas de gestão comunitária | As reformas no papel podem ultrapassar a capacidade local; acessibilidade económica para os mais pobres |
| Inovação liderada pelos operadores (Antioquia) | Operadores comunitários organizados; um facilitador; inovadores locais; financiamento para projetos-piloto | Regiões com universidades, start-ups e associações de operadores | Comunidades com capacidade muito reduzida; projetos-piloto que nunca encontram comprador |
Créditos: Apresentações de Maria Pia Ancora (BAsD), Samol Ya (BAsD), Leonellha Barreto-Dillon (Cewas). Moderação da sessão: Siti Hasanah (BAsD). Discurso de abertura: Dr. Bruce Campbell (SDC). Conceção e organização da sessão e-Marketplace/SIRWASH: Vivek Raman (BAsD), Jihan Al-Shdifat (BAsD), Beatriz Giraldo (BID), Cristina Merrcereyes (BID), Dra. Aline Saraiva Okello (Skat Foundation/RWSN), Batima Tleulinova (Skat Foundation/RWSN), Sean Furey (Skat Foundation/RWSN)
Agradecemos ao BAsD por ter acolhido o primeiro webinar do SIRWASH 2 através da sua plataforma e-Marketplace.
O Sustainable and Innovative Water, Sanitation and Hygiene Services in Rural Areas (SIRWASH) Fase 2 é impulsionado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e financiado pela Agência Suíça para o Desenvolvimento e a Cooperação (SDC), e tem como objetivo contribuir para aumentar o acesso e a qualidade dos serviços de água, saneamento e higiene nas comunidades rurais, com ênfase no género, na diversidade e nas alterações climáticas, para um setor rural inclusivo, resiliente e sustentável. Através do intercâmbio de experiências e da promoção de boas práticas escaláveis, o SIRWASH reforça alianças estratégicas e fomenta a aprendizagem colaborativa entre os atores do setor, facilitando a melhoria contínua dos serviços e contribuindo para o desenvolvimento sustentável nas comunidades rurais. A série de webinars do SIRWASH 2 é uma parceria entre o BID, o BAsD, o BAD e o Banco Mundial, com o apoio da Skat Foundation através da Rural Water Supply Network (RWSN).



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